No comando das famílias, a mulher do terceiro milênio

Voltar
A+
A-

Por Coordenadoria de Comunicação Social   |   8 de Março de 2018 às 12:46

Por Maria Helena Monteiro*

As famílias brasileiras vivem um processo acelerado de reordenamento das estruturas internas de poder. Cada vez mais, são as mulheres que assumem a chefia dos núcleos familiares, como resultado de amplas transformações econômicas, sociais e demográficas nas últimas décadas. Elas vivem em média sete anos mais que os homens, ultrapassaram os homens em todos os níveis educacionais, aumentaram a sua participação no mercado de trabalho e reduziram as disparidades salariais.

As mulheres também são maioria entre os beneficiários da Previdência e dos programas de assistência social. Isso apesar de só terem conquistado igualdade legal de direitos na Constituição de 1988! Essas conquistas foram mapeadas no estudo “Mulheres chefes de família no Brasil: avanços e desafios”, coordenado pela Escola Nacional de Seguros. O levantamento feito pelos demógrafos Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Diniz Alves mostra, de forma inequívoca, as mudanças que estão ocorrendo nesse campo no início do Século XXI.

Os resultados descortinam um novo cenário na sociedade brasileira. Entre 2001 e 2015, o total de famílias no País cresceu 39%, chegando a 71,3 milhões. Nesse período, o número de famílias chefiadas por homens subiu apenas 13%, somando 42,4 milhões. Já os núcleos familiares chefiados por mulheres dobraram em termos absolutos, passando de 14,1 milhões para 28,9 milhões. Esse aumento ocorreu no Brasil como um todo, em todas as regiões, nas áreas rurais e urbanas, para todos os tipos de família, e em todas as faixas de renda e educação.

O estudo permite detalhar as causas e os desdobramentos desse fenômeno. Há quase 10 anos faço palestras pelo Brasil, falando de empoderamento feminino. Não gosto da expressão em si, mas do significado que ela carrega, de demonstrar para as mulheres que elas podem ser donas de suas escolhas e de seus destinos. Nessas andanças, e nas conversas com plateias variadas, ficou claro que há uma mudança significativa no perfil das mulheres brasileiras. Nem todas estavam em busca de um casamento, algumas não cogitavam ter filhos e muitas se intitulavam as chefes da família.

O estudo surgiu justamente dessa constatação. Precisávamos mergulhar nos números e interpretar as estatísticas, para entender o que está acontecendo no Brasil sob essa ótica ainda inexplorada. Com um excedente de quase quatro milhões de indivíduos, as mulheres vão preenchendo os espaços sem ter que pedir permissão aos homens, em um regime que ainda tem muitos resquícios de patriarcado.

Em 2000, as mulheres já superavam os homens em 500 mil eleitoras. Nas últimas eleições, em 2016, o superávit feminino no eleitorado já estava em 6,8 milhões de pessoas aptas a votar. É fácil constatar que as mulheres vão decidir as eleições deste ano, embora nenhum candidato tenha se posicionado como defensor das justas questões femininas. Nenhum fala, por exemplo, em incrementar políticas públicas de cuidados com crianças e idosos, que tanto restringem as oportunidades de trabalho feminino fora de casa. Uma lacuna imensa que precisa ser preenchida.

É sabido que as mulheres passaram a dedicar mais tempo às atividades produtivas, elevando o volume de trabalho no País em termos quantitativos e qualitativos. Mas persiste uma enorme disparidade entre homens e mulheres no que diz respeito ao tempo dedicado aos afazeres domésticos e aos cuidados com filhos e idosos. Em 2001, as mulheres dedicavam 28,7 horas semanais aos afazeres domésticos, contra 24,4 horas semanais em 2015. A mulher ainda carrega a maior parte da responsabilidade nesses aspectos, o que pode limitar em muitos casos a ascensão profissional.

Outros indicadores mostram o desequilíbrio na divisão de responsabilidades. Em 2007, segundo o IBGE, em 89% dos divórcios a guarda dos filhos foi concedida às mulheres. A sociedade precisa ampliar essa discussão. Homens e mulheres devem rever conceitos atávicos, principalmente ao educar os filhos, para que saibam compartilhar deveres e responsabilidades que muitas vezes são displicentemente delegados a elas.

O estudo “Mulheres chefes de família no Brasil: avanços e desafios” traz dados preciosos sobre essa nova realidade. Os brasileiros não apenas vivem mais, como buscam meios para conquistar os diversos tipos de seguros contra os riscos inerentes à maior longevidade e aos tipos de arranjos familiares, bem como para proteger seu patrimônio. As mulheres estão rapidamente ganhando espaço em todos os campos – e é imprescindível que se pense nelas ao desenhar políticas públicas, produtos e serviços que facilitem essa marcha inexorável rumo ao futuro – que será feminino, como demonstram as estatísticas.

* Maria Helena Monteiro é diretora de Ensino Técnico da Escola Nacional de Seguros 

Outras Notícias